Atuação

LIBRAS 

            Em 1999 fiz o curso de Língua Brasileira de Sinais (Libras) na Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos, em Porto Alegre, motivada pelo desejo de conversar com uma colega surda. No começo sabia poucos sinais, mas tentava bater papo assim mesmo. Minhas conversas ficavam restritas a um simples “oi” e “bom conhecer você”. A partir daí, porém, envolvi-me com a comunidade surda e nunca mais me afastei da causa.

              De volta a Passo Fundo, fui voluntária na Associação de Pais e Amigos dos Surdos (APAS), acompanhando os estudos, em fase pré-vestibular, de três meninas surdas que desejavam cursar Pedagogia. Quem mais aprendeu neste tempo fui eu. No mesmo período fui bolsista da Universidade de Passo Fundo (UPF) na Escola Estadual Nicolau Araújo Vergueiro (EENAV), fazendo a tradução Português/Libras para uma aluna surda do curso Normal.

          Logo após, fui contratada como intérprete de Libras pela UPF e, nesta atividade, trabalhei nas Jornadas de Literatura, onde aquelas meninas do começo da minha história puderam participar pela primeira vez de um evento literário.

               Nossa, que nervosismo!

            Milhares de pessoas me olhando, indagando, questionando a complexidade da língua de sinais e o nível de compreensão deles pelos surdos. Nesta época meu vocabulário em Libras já estava um pouco melhor. Após esta iniciativa pioneira, a participação dos surdos vem sendo constante em todas as Jornadas Literárias! Nessa época a Universidade ainda não tinha medidas de efetiva inclusão e permanência das Pessoas com Deficiência (PcDs). Através da parceria com alguns professores e colaboradores, iniciamos a construção de políticas educacionais inclusivas na Universidade de Passo Fundo, que foi e tem sido referência de inclusão no ensino superior.

DIREITOS HUMANOS

      A questão dos Direitos Humanos, para mim, significa algo muito maior que apenas os cumprimentos de leis ou mesmo da elaboração delas. Temos, na Constituição Brasileira de 1988, todas as condições necessárias para uma vida digna e cidadã. Inclusive garantindo o respeito às diversidades e defendendo os direitos humanos numa condição de pluralidade e heterogeneidade.

           No entanto, mais de vinte anos se passaram e várias parcelas da população não alcançaram a garantia desses direitos. O processo de exclusão marca presença permanente na vida das pessoas que estão fora do modelo econômico estabelecido por uma sociedade capitalista e excludente diante a diferença. Fatores como idade, gênero, orientação sexual e etnia são agentes de exclusão, assim como estão excluídas as pessoas com deficiências e aquelas em situações de carceragem ou abandono.

     Se ainda temos pessoas nestas situações, o que está dando tão errado? Sinceramente, acredito que um dia teremos menos desigualdades, menos preconceitos, menos discriminações. É sério! Sei que pelo menos eu quero lutar por isto, fazer a minha parte.

      Realmente acredito na força da mulher, na sensibilidade feminina, na docilidade das ações. Vivemos num país historicamente machista e com pensamentos patriarcais. Incutiram na nossa mente que servimos apenas para cuidar da família, da casa, dos filhos. Não que isso seja ruim – de forma alguma, aliás – afinal temos muito disso na nossa essência feminina.

        Mas penso que as mulheres devem ocupar espaços de participação na construção da sociedade que almejamos, pois elas poderão desarmar esta sociedade, por que não precisam medir força com ninguém para mostrar sua virilidade, já que, por exemplo, não são presenteadas, na sua infância, com armas ou carrinhos de brinquedos. Elas odeiam as guerras porque estas lhe tiram os filhos, ou mesmo compactuam com a dor da outra mãe. Isto é o que as tornam desarmadas pela própria natureza, sendo verdadeiras articuladoras da paz!

       Sou feminista, sim! Mas sei que a sociedade só se tornará soberana e justa a partir da união de todos, da compreensão e do respeito às diferenças.

MOVIMENTO SOCIAL

            O trabalho voluntário na APAS me pôs em contato com diversas outras instituições representantes das pessoas com deficiências. Após esse primeiro contato – e devido também às minhas participações em movimentos sociais –, fui convidada a fundar uma entidade que fomentasse as discussões sociais e ajudasse a organizar os movimentos em Passo Fundo.

            Assim, em 2001, através da união de alguns amigos com o mesmo desejo, nasceu a Associação Brasileira da Construção e Defesa da Cidadania (ABRACC), que tem por objetivo de promover e defender a cidadania, a democracia, a ética, a paz, os direitos humanos e constitucionais, bem como qualquer outro interesse difuso, coletivo ou universal. A partir de um objetivo proposto, fomos ao encontro das entidades representativas de diversos segmentos do movimento social. Assim iniciamos nossa caminhada! No mesmo ano, a ABRACC colaborou com a Associação Passo-Fundense de Cegos (APACE) na organização do Seminário Municipal sobre Acessibilidade.

         Em 2002, ingresso na direção da APAS e, dessa forma, passo a me envolver, ainda mais, com as necessidades da entidade na busca por ações efetivas em relação à educação dos surdos e deficientes auditivos da nossa cidade e região. Como representante da ABRACC, estive presente em momentos importantes das entidades, como a reformulação estatutária e reorganização de alguns movimentos, além de apoio do processo eleitoral – ora como integrante da comissão eleitoral, ora como fiscal.

     Ainda como representante da ABRACC participei da organização, em parceria com a Delegacia Regional do Trabalho, de uma audiência pública com empresários locais na qual as PcDs puderam expor suas capacidades e necessidades adaptativas, com intuito de promover a inclusão do segmento no mercado de trabalho.

        Em parceria com o SENAI, a APAS e os poderes públicos municipal e estadual, organizamos um curso de Libras para funcionários públicos de cada uma das instituições do município. A parceria deu tão certo que reeditamos o curso no ano seguinte, sendo que hoje podemos constatar a presença de pelo menos uma pessoa com conhecimento de Libras e a especificidade da surdez em diversos espaços, como por exemplo, o Fórum municipal, a Prefeitura, a Câmara de Vereadores, Promotoria Pública, Hospitais, Bombeiros, Brigada Militar, Coordenadoria Estadual de Saúde, entre outros importantes locais públicos.

       Através da ABRACC, entrei em contato com o Instituto Regional do Negro (IREN) no debate sobre consciência negra e também passei a debater e apoiar ações do segmento. Em parceria do SENAI com a APAS, formamos o Grupo de Apoio Local – GAL, que reúne os representantes dos segmentos que trabalham com as pessoas com deficiência e com voluntariado. Colaboro também com a realização da Feira de Economia Popular Solidária (FRESOL), por entender que este espaço de consumo é o mais saudável e ainda uma alternativa para a agricultura familiar.

            Desde então continuo envolvida com esses segmentos e representando suas demandas através de ações práticas, como a Ação Civil sobre Acessibilidade e o Projeto de Iniciativa Popular sobre o Passe Livre para pessoas com deficiências carentes de Passo Fundo. Hoje estou presidente da ABRACC e permaneço no conselho fiscal da APAS.

IGUALDADE DE GÊNERO

            Percebo no ar uma insatisfação geral das pessoas com o formato e os resultados da estruturação da sociedade na qual estamos inseridos neste momento da história. Nós, mulheres, não participamos da construção desta sociedade, pois estávamos excluídas das decisões sobre economia, política e de todos os poderes. Estávamos cumprindo os deveres do lar, as necessidades do matrimônio e preocupadas com a reprodução saudável e criação dos filhos.

            Pensamos que somos, pela questão biológica, geradoras e cuidadoras da vida. O mundo evoluiu e hoje – após tantas lutas – estamos pouco a pouco ocupando espaços de poder.

            Enfim, estamos falando de uma luta política, onde a opressão e a violência contra a mulher estão enraizadas num sistema que divide e explora homens e mulheres. Nossa luta tem que alcançar bandeiras das mulheres no movimento contra as guerras, contra o capitalismo e o imperialismo que há anos constrói em nossas mentes conceitos turvos a respeito da nossa condição.

            Por isso nós, mulheres, queremos todos juntos na dança da vida e não apenas alguns! Queremos que as ruas e as praças sejam para todos festejarem, passearem e viverem seguros como em sua casa; Queremos que os rios, terra e todos os seres sejam protegidos como nosso corpo; Queremos que as diferenças sejam vividas como a beleza de um jardim, onde todas as flores formam um conjunto maravilhoso, longe de serem justificativas para a injustiça e a desigualdade. Enfim, convoco a todas e todos para juntos defendermos ações de paz, de igualdade e de oportunidades, pelo o fim da opressão e por uma sociedade mais justa e fraterna onde homens e mulheres contribuam para construção de um mundo melhor. Onde não tenhamos motivos para nos assustar com a violência, o adoecimento generalizado e a degradação do meio ambiente.   

               Penso que são estas ações que constroem o verdadeiro sentido da luta emancipacionista!

MOVIMENTOS DE LIVRE ORIENTAÇÃO SEXUAL

             Estamos vivendo um período onde a diversidade está em todos os lugares. Assim, precisamos considerar que a sociedade já não é mais totalmente heterossexual, por exemplo. Dessa forma, é preciso construir políticas que contemplem, principalmente, questões culturais no combate ao preconceito.

            Destaco a importância de discutirmos as políticas de inclusão e direitos humanos das diferentes comunidades, sem rótulos, passando pelo reconhecimento dos direitos à liberdade, à promoção, à orientação e expressão sexual, além de fazer valer que tais direitos sejam estendidos aos homossexuais.

            Hoje, no século XXI, vemos ações extremamente homofóbicas. Podemos ver isso, claramente, através de uma pesquisa realizada com cinco mil professores do ensino fundamental e médio que revelou que “59,7% deles acham inadmissível que uma pessoa possa vir a ter experiências homossexuais e que 21% deles disseram que não gostariam de ter um gay ou uma lésbica como vizinhos”. Ainda de acordo com a pesquisa, quanto aos alunos, “25% deles responderam que não gostariam de ter um colega de classe homossexual ou bissexual” ¹.

            Dados como estes mostram o porquê da imensa evasão escolar de homossexuais nas escolas, pois tamanho é o preconceito vindo por colegas e professores, que a situação acaba tornando – muitas vezes – inviável o término da formação. Outra pesquisa.

           Outra pesquisa, do IBOPE, demonstra que apenas “36% dos heterossexuais tem  LésbicasGaysBissexuaisTravestisTransexuais e Transgêneros (LGBTTTs) em seus círculos de amizade, e que 51% desaprovam a presença de casais homossexuais em telenovelas” ².

           Falar sobre direitos sexuais ainda é um tabu, pois a questão do homossexualidade sempre foi tratada como um desvio, como afronta à moral, como vergonha social. É justamente esta visão conservadora e preconceituosa que tem sido um obstáculo para que o Legislativo aprove leis identificadas fora dos padrões morais.

           A questão dos transgêneros é muito mais séria, pois estes passam por preconceito e exclusão, muitas vezes dentro da própria família, afetando também a escola e o mercado de trabalho devido à escolha que fazem por sua identidade social.

           Devemos implementar políticas públicas de garantias dos direitos humanos de gays, lésbicas e transgêneros. Ações voltadas para promoção da cidadania, com ênfase na diversidade sexual no âmbito da educação, de promoção de saúde integral, de combate à discriminação no trabalho e de igualdade para todos nós.

           Qualquer avanço a esse respeito não constitui vitória só da comunidade homossexual, mas principalmente da sociedade brasileira para que possamos construir uma cultura de respeito e valorização da diversidade.

           Não devemos tratar a comunidade homossexual como algo à parte. Precisamos entendê-la como parte integrante do povo, que a valoriza e respeita todas as populações.

           Por isso, defendemos:

  • Uma campanha organizada pelos movimentos sociais e sindicatos em defesa dos direitos dos LGBTTTs e contra a opressão homofóbica;
  • A criminalização da homofobia;
  • A punição rigorosa aos assassinos homofóbicos;
  • A garantia total aos LGBTTTs dos direitos civis, humanos e sociais reconhecidos aos heterossexuais;
  • Direito à união civil já;
  • Adoção de crianças para casais do mesmo sexo;
  • Direito à mudança de identidade civil para travestis e transexuais.

            Enfim, a luta pela diversidade sexual é luta contra a homofobia e pelo verdadeiro socialismo que liberta os seres humanos de todas as formas de opressão e exploração, incluindo o machismo, o racismo e a homofobia.

            Através das ações da ABRACC conheci o Serviço de Orientação e Solidariedade à AIDS (SOSA), grupo de pessoas maravilhosas e guerreiras num mundo preconceituoso e sem esperança. Trabalhamos com a questão da livre orientação sexual, ministramos oficinas sobre Cidadania e Direitos Humanos – orientações sobre os direitos das minoras sexuais – para profissionais do sexo e transgêneros. Um trabalho gratificante, que me rendeu grandes amizades (aquelas que a gente não esquece nunca mais).

            Participei de algumas das atividades de sensibilização da entidade nas escolas, além de colaborar na participação das Rondas da Cidadania – ações realizadas nos bairros, organizadas pelo Poder Judiciário – com a distribuição de materiais informativos da entidade.


¹ Pesquisa publicada originalmente no Jornal Socialismo Revolucionário nº. 33.

² Pesquisa publicada originalmente no Jornal Socialismo Revolucionário nº. 33.

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